‘Que se f*da a Ciência, cara!’

Frases prováveis de um diálogo pouco provável, amparado por fatos para lá de concebidos.

— E aí, cara, beleza?

— Opa! Mais ou menos. Tá difícil essa vida. Pra mim que sou cientista, fica difícil ver o corte de mais de 10 bilhões do orçamento do Ministério da Educação, corte de 1,4 bi no Ministério de Ciência e Tecnologia, cortes no financiamento de auxílio à pesquisa da CAPES, cortes nas fundações de amparo, cortes de milhares de bolsas de estudo no Brasil e corte de todos os novos pedidos para o exterior. É muito corte. Isso sem contar o exército de doutores desempregados, assistindo um outro exército se formando, sem perspectivas de concurso ou vaga no mercado privado.

— Que se foda a Ciência, cara! Estamos em uma crise econômica, à beira de um colapso em diversos setores da indústria e do comércio. Temos mais com o que nos preocupar. Quem liga pra Ciência uma hora dessas?

— Mas olha só o exemplo do Japão. Após ser sido derrotado na Segunda Guerra Mundial e com a economia completamente destruída, resolveu investir em Ciência e Educação. Hoje, o país conta com quase 700.000 cientistas dentre os seus 127 milhões de habitantes. A pasta tem hoje um orçamento anual de cerca de 120 bilhões de dólares, a nação é líder mundial na produção de pesquisa fundamental e detém um PIB de quase cinco trilhões de dólares, cuja maior parte é fruto de insumos tecnológicos.

— Ah, mas o Japão é o Japão. Quero ver fazer isso com um PIB que nem o nosso.

— Dá pra fazer até com menos. Israel tem seu PIB de US$ 290 bilhões fortemente atrelado à produção científico-tecnológica e ocupa o sexto lugar em relevância científica. Apesar de ter crescido bastante no número de publicações, alcançando um 23º lugar, o Brasil ocupa o 40º lugar em termos de qualidade de suas produções. Pra piorar, a produção econômica advinda de nossas pesquisas é pífia, mesmo com nosso PIB de US$ 2,2 trilhões. Mesmo se considerarmos o PIB per capita brasileiro (cerca de US$ 11.000), o Brasil ainda está atrás da Índia na produção científica, país que detém aproximadamente US$ 1.000 per capita, valor 10 vezes menor.

— Então o Alckmin tá certo quando diz que a Fapesp prioriza financiar um monte de projeto de sociologia ou então pesquisas sem utilidade prática.

— Rapaz, o Alckmin, em uma simples frase, conseguiu errar três vezes. Pra começar, a Fapesp é a maior financiadora do maior centro de produção científica do país, que é o estado de São Paulo. USP, Unicamp e Unesp são responsáveis por mais da metade das publicações do Brasil se considerarmos apenas as 10 melhores nacionais. Detém também o maior número de publicações de alto impacto, o que invalida essa afirmação de priorizar inutilidades. E ele erra também porque as ciências humanas são as que recebem menos recurso. Muito me espanta ele tratar a sociologia como algo inútil, já que essa ciência foi base primordial para a fundação de seu partido. Mas ele erra principalmente no conceito de “pesquisa inútil”. Ciência básica não é inútil. Você sabe o que é Caspr-Cas9?

— Não.

— Basicamente, é uma técnica de edição de DNA muito precisa, que tem a promessa de curar qualquer doença genética. A notícia saiu esse mês e é considerada como a maior revolução da biotecnologia depois da ovelha Dolly. Resultados prévios já apontaram a cura para a AIDS inclusive, mas aqui no Brasil, esse país de analfabetos científicos, quase ninguém falou sobre isso. O que eu quero te ilustrar é que o Crispr-Cas9 foi descoberto através de pesquisas básicas envolvendo defesa de bactérias. Ninguém encomendou essas pesquisas com o objetivo de revolucionar a genética. Ninguém sequer sabia disso. Isso porque não existe avanço sem base. E tem mais, se o problema é a falta de aplicabilidade, há de se mudar a maneira de se aplicar a Ciência e não simplesmente cortar suas pernas. Se você tem um produto muito bom e quer fazer com que ele seja consumido, você tem que investir no acesso ao seu cliente ao invés de fechar a fábrica.

— Muito bonito, mas uma descoberta dessa não acontece aqui no Brasil.


Essa semana, a Suzana Herculano-Houzel, neurocientista de renome internacional, após anos dando soco em ponta de faca, aceitou em tom de desabafo um convite para trabalhar nos Estados Unidos.

— Rapaz, você falou muito, mas pra mim só falou abobrinha. Quando o assunto é Ciência, já me falaram pra recorrer a um amigo de uns amigos meus. Ele com certeza concorda com tudo que eu to falando e ainda tem uma visão de Ciência bem diferente da sua.

— É mesmo? Ele é cientista também?

— Não, ele é bispo da Igreja Universal. Por falar em igreja, tenho que ir. Tenho uma reunião com o Marquinhos. Sobre esses problemas aí que você falou, não se preocupe, que Deus há de ajudar.

— Meu medo é esse.

— Medo por que?

— Sabe qual o nome que se deu ao período onde homens agiam sobre a Ciência em nome de Deus?

— Não. Qual é?

— Idade das trevas, Michel. Chamava-se Idade das Trevas…

Autor:  publicado em http://www.brasilpost.com.br/hugo-fernandesferreira/que-se-foda-a-ciencia-car_b_9835372.html

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